segunda-feira, 13 de abril de 2009

+ Marcelo Gleiser. Definindo vida

Metabolismo e reprodução são propriedades essenciais

A vida é uma dessas coisas mais fáceis de identificar do que de definir. É incrível que, passados tantos séculos desde que começamos a pensar cientificamente sobre o mundo, ainda não tenhamos uma definição universalmente aceita sobre o que é a vida.

Por exemplo, sabemos que uma pedra não está viva. E por quê? Uma pedra não come, não bebe, não se reproduz. Comer e beber significa que atribuímos aos seres vivos a necessidade de se alimentar e de transformar alimentos em energia. Ou seja, seres vivos exibem alguma forma de metabolismo. A reprodução, a capacidade de fazer cópias de si mesmo, é outra característica fundamental dos seres vivos. A espécie que não se reproduz desaparece. Portanto, metabolismo e reprodução são as duas propriedades mais importantes da vida. Qualquer definição do que seja vida tem que incluí-las. Mas e o fogo? Se alimenta também, consumindo oxigênio e a matéria que entra em combustão. E se reproduz, espalhando-se por onde pode. Porém, todos concordam que o fogo não é considerado um ser vivo.

Estrelas, também, podem confundir. Por meio da fusão nuclear, consomem o hidrogênio em seu interior, transformando-o no elemento hélio, um processo que libera enormes quantidades de radiação. Numa espécie de autofagia, as estrelas se alimentam da própria matéria. De certa forma, estrelas também se reproduzem: quando uma "morre", explode com enorme violência, espalhando sua matéria pelo espaço. Se essa matéria colidir com uma nuvem de hidrogênio, causará instabilidades que fazem com que a nuvem entre em colapso e se transforme, caso tenha matéria suficiente, numa nova estrela. Dentre outras coisas, a diferença entre o fogo ou uma estrela e uma ameba ou uma mariposa está na composição química: seres vivos são formados por compostos orgânicos, moléculas complexas que incluem proteínas e ácidos nucléicos, o RNA e DNA usados na reprodução.

Vemos na insistência de uma definição da vida uma limitação da linguagem. Não é que não saibamos como definir a vida; talvez a vida seja indefinível, ao menos de forma precisa e universal. Talvez tenhamos que nos contentar com uma definição operacional: a vida é um sistema de reações químicas autossustentáveis capazes de extrair energia do ambiente e de se replicar. Mesmo que essa definição não mencione compostos orgânicos, é difícil incluir o fogo e as estrelas nela. Em discussões sobre o que é a vida, sempre se fala nos vírus e nos príons como casos limite. Os vírus só se reproduzem em contato com uma célula viva, e os príons nem material genético têm. Por não terem autonomia, ambos são considerados "replicadores" em vez de seres vivos. Essas distinções e definições não são apenas questões de interesse acadêmico. Com a exploração de outros planetas e luas, é cada vez mais importante compreendermos as várias facetas da vida. Mesmo que limitados no momento pelo que estudamos aqui na Terra, nossas definições precisam ser gerais o suficiente para englobar formas de vida inesperadas. É difícil prever em detalhe o que nos espera em outros mundos. Talvez nada, ao menos a julgar pelo que encontramos até agora. Contudo, como dizia Carl Sagan, a ausência de evidência não é evidência de ausência. (Aliás, essa definição funciona também para fadas, duendes, Deus...)

Devemos manter a cabeça aberta e nossas definições amplas, para englobar o desconhecido. Seja o que for, se estiver vivo precisará de energia e terá de se reproduzir. Com relação a isso, não temos do que duvidar.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"
[Folha de São Paulo, domingo, 12 de abril de 2009 ]

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Breve exercício de Coesão Textual

1) Analisar os elementos de coesão textual, explicando o seu funcionamento, dizendo se é pleno ou não:

a) A casa caiu. Ela era velha.

b) A casa caiu. A mesma era velha.

c) O mesmo aconteceu com ele: morreu ontem.

d) Dirija-se ao secretário e diga ao mesmo que retorne logo da viagem.

e) A casa caiu. Ela é velha.

f) Marcos era um sábio. Nunca soube porém o mesmo que Carlos.

g) A casa caiu: Ela foi embora.

domingo, 29 de março de 2009

MATEMÁTICA: RUSSO-FRANCÊS GROMOV GANHA PRÊMIO ABEL

O matemático russo naturalizado francês Mikhail Leonidovitch Gromov, 65 ganhou anteontem o Prêmio Abel, o "Nobel" da matemática, concedido pela Academia de Ciências e Letras da Noruega. Segundo o comitê do prêmio, Gromov foi responsável por avanços "revolucionários" na geometria, teoria dos grupos e teoria das cordas. Professor do Instituto de Estudos Científicos Avançados de Bures-sur-Yvette, Gromov receberá 6 milhões de coroas norueguesas (US$ 950 mil) pelo Abel.

[Folha de São Paulo, sábado, 28 de março de 2009]

Correção da mensagem inicial

Bom dia, turma!
Indicamos que até o presente momento ninguém detectou o “herro” cometido na nossa Mensagem Inicial, tal como desafiamos no e-mail da turma. E por isto apresentamos uma dica, para ver se obtemos com isso uma boa resultante:

Trata-se o “herro” de uma incorreção verbal. Verificar no tempo / modo dos verbos se existe concordância cada vez...

Avisamos ainda que não se trata do trecho “comentários trazido”, porquanto há concordância –que deve ser verificada sintaticamente, não pela proximidade entre as palavras...

Mantém-se o acréscimo de um ponto, a agregar à nota da primeira avaliação, para aquele / aquela que primeiro detectar o proposital “herro”, conforme anunciamos no início das aulas.

T+,
Júlio

Foto: O Bruxo do Leblon e Trechos de Leite Derramado


"Ao deparar com gente na calçada, despi o paletó, protegi minhas pernas e me enfiei numa ruela. Mas logo na avenida Beira-Mar eu já podia caminhar como convém a um cavalheiro, a não ser pelo chapéu esquecido no banco da igreja."

"Mas como eu não sabia me desfazer da casa de Matilde, comecei a considerar a hipótese de sacrificar o casarão de Botafogo, que acarretava muitas despesas, com uma dúzia de empregados."

"Os coveiros estavam de má vontade, e quando o caixão bateu com peso no fundo da tumba, o baque abafado me soou como o fim da linha dos Assumpção. Para mim já estava bom, bastava."

"Meu avô foi um figurão do Império, grão-maçom e abolicionista radical, queria mandar todos os pretos brasileiros de volta para a África, mas não deu certo."
[O cantor, compositor e escritor Chico Buarque, 64, durante sessão de fotos realizada em sua casa, no Rio de Janeiro. Foto de Daryan Dornelles, da Folha Imagem. Folha de São Paulo, sábado, 28 de março de 2009.]

Resenha: CHICO BUARQUE, o Bruxo do Leblon

Chega às livrarias o mais novo romance de Chico Buarque, "Leite Derramado", saga familiar que se mistura à história do Brasil e evoca estilo da prosa de Machado de Assis
Um idoso centenário agoniza no leito de um hospital. Às enfermeiras que dele tratam, conta, de modo confuso e algo delirante, a história de sua vida. A saga de uma família que tem início na corte portuguesa, atravessa os períodos do Império e da República Velha e desemboca nos dias de hoje é o centro do enredo de "Leite Derramado", quarto romance do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque, 64, que chega hoje às livrarias.
A trama percorre o mapa de um Rio tradicional, revisitado pela reportagem da Folha -que pode ser visto no ensaio de fotos das págs. E6 e E7. Do ponto de vista estilístico, a prosa de Chico evoca características da narrativa machadiana. O diálogo com o "bruxo do Cosme Velho" foi observado pelo crítico Roberto Schwarz e pelo economista Eduardo Giannetti, que resenharam a obra a convite da Ilustrada.
A inspiração inicial para o livro veio da canção "O Velho Francisco", de 1987. O autor a tinha como esquecida até ouvir uma regravação feita pela cantora Monica Salmaso. Em 2008, quando o produtor Rodrigo Teixeira o procurou para falar de um projeto em que escritores fariam textos baseados em músicas do cantor, Chico deu o seu aval, mas pediu que "O Velho Francisco" não fosse utilizada, pois com essa ele mesmo já estava fazendo algo. A letra fala das agruras de um ex-escravo, alforriado "pela mão do imperador".
Ao reescutá-la, Chico pensou em escrever a história de um velho. Só que, quando foi pôr mãos à obra, mudou o enfoque. Trocou o ex-escravo por um homem de nobre estirpe. E é por meio dele, Eulálio Montenegro d'Assumpção, o tal moribundo citado acima, nascido em 16 de junho de 1907, que o escritor narra a decadência de determinada elite brasileira.
A questão racial, porém, continuou sendo central na obra. O protagonista casa-se com uma mulata -ainda que finja não percebê-la como tal- e tem comportamento racista em diversas ocasiões. Aos poucos, porém, os Assumpção vão misturando seu sangue nobre cada vez mais, até que o bisneto de Eulálio nasça negro, algo em que tampouco quer acreditar.
"Leite Derramado" sugere um duplo sentido. O primeiro, mais pontual, refere-se ao abandono de Eulálio pela mulher, Matilde, quando esta ainda amamentava a filha do casal. O segundo indica o significado mais geral da obra -a derrocada fatal de uma casta, tragédia que se mostra irreversível. Um dos primeiros leitores do texto foi o romancista Rubem Fonseca, que não gostou do título e recomendou que fosse trocado. Chico pensou um pouco, mas não mudou de ideia.
O romance começou a ser escrito em agosto de 2007 e dá vida a objetos e lugares que habitam as lembranças do autor, como aparelhos de vitrola, refrigeradores Frigidaire, colégios para moças, ritmos de época. Sua paixão pelo Fluminense se materializa na figura de Xerxes, um fictício jogador indisciplinado dos anos 50.

História
A reportagem visitou locais nos quais o romance se desenvolve. Vistos hoje, os casarões de Botafogo abandonados, a ocupação desordenada da Tijuca e a explosão imobiliária de Copacabana parecem corresponder à degradação proposta pelo enredo.
Por ser filho do mais importante historiador brasileiro, Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), e por ter optado por um enredo sobre o passado do país, alguns acreditaram que "Leite Derramado" fosse fazer aproximações entre literatura e história.
A obra, porém, diz respeito mais à primeira do que à segunda. O próprio Chico deixou claro que partiu da ficção para a pesquisa de fatos, datas e acontecimentos, e não o contrário.

Timidez
Celebrizado por sua discrição e timidez como músico, Chico se mostra ainda mais contido como escritor. Recusa-se a conceder entrevistas, alegando dificuldades em explicar o livro além do que está dito em seu conteúdo. Quando está metido na literatura, trabalha em silêncio e praticamente isola-se para se manter totalmente concentrado, em seu apartamento, no Leblon.
"Leite Derramado" contribui para consolidar o Chico escritor. Sucede livros cuja vendagem vem crescendo. O primeiro, "Estorvo" (1991), vendeu 180 mil cópias; o segundo, "Benjamim" (1995), 85 mil; e o mais recente, "Budapeste" (2003), chegou a 275 mil.
[Sylvia Colombo, enviada especial ao Rio. Folha de São Paulo, sábado, 28 de março de 2009.]
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LEITE DERRAMADO
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das LetrasPreço: R$ 36 (200 págs.)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Termos estrangeiros no Manual da Rádio Senado

Item 10: Palavras e termos estrangeiros
Obs.- Com pequenas modificações frente ao original:

Muitas palavras e termos estrangeiros já foram incorporados ao nosso uso e podem ser usados sem problema, mesmo em um texto destinado à leitura em voz alta. Outros podem dar confusão se não forem adaptados. Mais um caso em que o velho bom senso deve funcionar. Vamos direto a alguns casos em que o estrangeirismo já está incorporado:

Habeas corpus (plural: habeas corpi), iceberg, show, cd-rom, blazer, laser (do raio laser, diferente de lazer), delicatessen (não tem plural), doping, blitz (plural: blitze), freezer, lobby (plural: lobbies), marchand, impeachment, jet-ski, marine, quórum, réveillon, walkie-talkie, walkman, marketing.

Em outros casos, a palavra sofreu um aportuguesamento apenas na grafia. A pronúncia continua a mesma da origem e não houve tradução, na maioria das vezes porque nem sequer havia como traduzir. Prefira sempre escrever desta forma:

Uísque, contêiner, grife, trêiler, chope, gol, disquete, sanduíche, blecaute, futebol, vôlei, basquete, críquete , crachá, recorde, bife, quibe, lanche, conhaque, marqueteiro, lobista, aids etc.

Quando houver palavra ou expressão equivalente em Português, não tenha dúvidas: prefira sempre. O uso desnecessário de expressões e palavras estrangeiras em texto jornalístico é pernosticismo inútil e fica sempre ridículo.

EVITE USE

Affair Caso

briefing entrevista ou reunião

esprit de corps espírito de corpo

host, hostess anfitrião, anfitriã

inside information informação privilegiada

bonds ações, títulos, papéis

partner parceiro, sócio

low profile discreto

blue chips ações ou papéis nobres

button botão

check in, check out embarque, desembarque ou

entrada e saída do hotel.

Brainstorm debate, discussão

meeting reunião, encontro

bunker quartel-general

imbróglio confusão, tumulto

open market mercado aberto

paper documento, redação

sine qua non indispensável

personal trainer treinador, preparador físico

causa mortis causa da morte

[Baixe o Manual completo em: http://www.senado.gov.br/radio/manual/manual10.htm Porém não abandone a crítica vocabular: Sempre poderás ver alguma pequena incorreção se vc souber detectar cuidadosamente... como nessa frase anterior há pequeno detalhe de inadequação de “concordância pronominal”.]